quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

É tempo de Ano Novo...








O tempo tem passado tão rápido! Parece furioso, desatento e intranquilo.
É um descarrilhar de dias e meses que vão se amontoando numa deselegância que beira a vulgaridade.
O tempo anda vulgar e tão fugaz que nos perdemos num emaranhado de hojes, amanhãs e depois de amanhãs totalmente despersonalizados.
Como diz o poeta: "o tempo não para! " mas porque de tanta brevidade, tanta urgência?!
Caso eu queira  ao esticar as mãos posso tocar o ano de 2011, onde os golpes sofridos ainda sangram, os momentos felizes ainda me sorriem, ainda não assimilei muitos fatos ocorridos em 2011 e estou claudicante com as aflições e as quedas sofridas nos atropelos desse ano.
Estou exausta!
Ainda me ressinto de 2011 e não me  recuperei dos atropelos de 2012 e o ano 2013 está aqui, pisoteando a porta, exigindo sua passagem, sem modéstia, sem ternura, quase sem nenhuma consideração.
Disseram  bobamente que o mundo iria acabar em 2012, pra mim o mundo já acabou faz tempo.
O mundo  em que as tardes se estendiam lentamente rumo ao anoitecer e as noites não se encabulavam de se emaranhar nas madrugadas em horas infinitas que se quebrantavam em um amanhecer dengoso e chameguento.
Tempo em que as manhas se entrelaçavam aos dias que,  mesmo que aflitos ou atribulados, não perdiam uma cadencia de horas comedidas e tranquilas.
O tempo engoliu o mundo!
E somente as contas à vencer conseguem nos orientar quanto aos dias, aos meses e as horas.
Parece que foi ontem que paguei o IPTU o IPVA. Meu Deus, já faz um ano e já tenho que pagar de novo! " Tempo, tempo, tempo faz um acordo comigo".
O tempo tem passado tão rápido! 2013 esta aqui, sôfrego, arranhando as portas, pisoteando as horas, pedindo passagem, invadindo o agora. E eu, na minha impotência e desimportância, só posso desejar que, já que ele será breve, que seja também leve, que seja alegre e se puder fazer um pedido, que seja gentil e generoso.
Tempo, faz um acordo comigo: Eu não vou fugir de você nem você vai me  perseguir. Um dia, a gente se encontra e nesse dia então, nenhum dos dois haverá de ter pressa.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Por motivos vários abandonei os cuidados necessáros e cotidianos com minhas orquídeas. Só essa semana consegui ainda que claudicante, retornar aos cuidados e mimos aos quais elas tem direito. Fiquei estarrecida em perceber o quanto elas sentiram. Muitas adoeceram, duas morreram e várias estão enfraquecidas e feias.Uma semana foi pouco pra tentar recuperar a beleza em meio a tanta desolação. Nem sei quantas semanas ainda serão necessárias.. A natureza é tão fragil! Espero que elas me perdoem pela ausencia e displicência dos últimos meses e que possamos recomeçar nossa reciprocidade, onde toda minha dedicação será recompensada com suas  flores diversas, lindas e de todas as cores!




sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“OS IMORRÍVEIS!”


Tem pessoas que nos passam a impressão de que são “imorríves”, isso é, mesmo após terem ultrapassado a muito dos 70 anos de idade, continuam gatafunhados na vida com tanto vigor e alegria que, a morte lhes parecem um insulto. Morrer? Quem disse que os “imorríves” têm tempo de morrer?

Estamos envelhecendo como nunca antes na história, temos legiões de idosos, Nos próximos 20 anos, segundo o IBGE, a população idosa do Brasil poderá ultrapassar os 30 milhões de pessoas e deverá representar quase 13% da população ao final desse período. Nesse universo os “imorríves” se sobressaem porque simplesmente não se permitem envelhecer, os velhos são sempre os outros. Quando indagados sobre algum problema referente à idade, ficam surpreendidos, afinal, como eles poderiam saber? São homens e mulheres, cujo tempo não se sabe bem porque, simplesmente esqueceu de admoestá-los, de fustigá-los, como impreterivelmente faz com os demais: Nós, os mortais comuns.
Os “imorríves” são seres adoráveis, dinâmicos, empreendedores e sempre dispostos. E que se ressalte, são raros, na verdade raríssimos. Sou uma privilegiada, pois tenho em meu pequeno círculo de amizades, alguns representantes preciosos de “imorríves”.
Alguns eu conheci quando eu ainda era jovem, eu envelheci, e eles continuam serelepes e pimpões. Enquanto eu constato que eu já vivi além do razoável, eles desconjuram quando o assunto é morte e dizem ter muito ainda a realizar, para os “imorríves”, idade é um detalhe insignificante.


Um dos meus “imorríves” queridos é seu Jair, o “rei da carne verde do Pará”, um dos maiores criadores de gado da região. Com quase 90 anos e já extremamente rico, iniciou um novo empreendimento: Criar peixes, em várias, de suas ilhas fluviais paraenses, com direito a inspeções pessoais e diárias. Ano passado, passei uma tarde maravilhosa ouvindo os relatos empolgantes de seu Jair, a respeito do novo empreendimento. Descreveu suas novas atividades, com tanta energia, empolgação e detalhes que eu fiquei exausta! E após a explanação acirrada eu já visualizava os peixinhos engordando vertiginosamente a fim de serem abatidos na próxima semana santa de 2012. Tenho certeza, que foi um sucesso. E que, em breve, Goiânia será invadida por toneladas de peixes congelados e deliciosamente paraenses.


Outra “imorrível” muito querida é D. Maria Luiza, com 80 anos ela é responsável pelo realce de minha pouca beleza, esclarecendo, M.Luiza é representante de produtos cosméticos, e vasculha a cidade durante todo o dia, pegando vários ônibus e andando distancias impensáveis pra muitos jovens, levando em mãos, seus produtos mágicos, que prometem a beleza e a juventude eterna. E espalhando em vários lares sua inacreditável alegria e leveza de ser. Vaidosa e bonita esta sempre atenta às novidades e, não poucas vezes, foge pra uma voltinha no Shopping Flamboyant, onde diz toda faceira que vai fazer algo muito melhor que ir ao cinema. Para um bom entendedor, “um risco é Francisco”.
Não poderia deixar de citar a “imorrível” espetacular, Dona Margarida Flores, que do alto dos seus 90 anos é detentora de uma generosidade e uma tranqüilidade surpreendente.D.Margarida ignora o tempo solenemente, veio me visitar ano passado, fazendo uma viagem de dois mil km de carro. Festeira, ela ainda ia percorrer mais mil km para presenciar a formatura do neto. Entusiasmada e escandalizada com minha pouca disposição em viver muito, repetia de forma grave: - Vc é única!
Mostrou-me roupas e adereços, mostrou-me fotos, contou-me casos, fez planos de presentear-me com toalhinhas primorosamente bordadas à mão. D. Margarida borda divinamente e pasmem dá aulas de artes e promove pequenas exposições com as peças dos seus alunos. E certamente quando eu morrer, vai dizer pesarosamente. “- Tânia era única!”.
Diz o poeta que os bons morrem cedo. Completo afirmando que os melhores não morrem nunca. Agigantam-se frente à vida, dominam as esquinas do tempo, ignoram tão veementemente a morte, que a confunde, a seduz. E vão se eternizando em vida, agitando e alegrando a existência dos demais mortais.
Que a vida lhes seja leve. Amém!


Tânia Fonseca


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Breve reflexão sobre amizade...

                                                                                                             

Há de se cuidar do amigo.
Há de se mimá-lo, protegê-lo e exaltá-lo.
Porque a amizade é grave! É gravíssima!

Não se pode ser breve com um amigo.
Não se pode estar indisponível.
Ser displicente.
Ausente...

É urgente dizer ao amigo a palavra desejada...
Enviar-lhe a mensagem necessária.
E estar sempre atento.
Há de se estar sempre atento aos amigos.

Afinal, a felicidade em geral surge das pequenas atenções,
Dos pequenos gestos, de delicadezas e sutilezas.
A amizade é grave! É gravíssima!

Há de se cuidar do amigo.
Há de se mimá-lo, protegê-lo e exaltá-lo!
Porque nada é mais desolador, triste e desonesto,
do que um “meio-amigo”, um “falso amigo” ou um “quase-amigo”.

Há de se cuidar do amigo.
Há de se mimá-lo, protegê-lo e exaltá-lo!
Se assim não for, cerquem-se apenas de simpatias e afinidades breves, e basta!
Porque a amizade é grave! É gravíssima!
Mas nos faz sempre, tão bem!"

Tânia Fonseca...

domingo, 13 de novembro de 2011

SOBRE AMOR, DESEJOS E AFINIDADES...


A conheci em setembro numa tediosa tarde qualquer!
Ela desarrumou meu dia. Tumultuou minha rotina
Requisitou-me com enunciados objetivos: “quero”, “preciso”, “como faço”.
Uma mulher inesperada!
                                                                                                      
Mas obstinada por um objetivo, uma mulher de escorpião!
Tirou a paz das minhas tardes e de algumas manhãs,
E derrepente me peguei pensando nela, às vezes.

Tinha um cheiro gostoso!
Era esguia. Gosto de magrinhas!
Assim, do nada, num momento de desatenção, dividi com ela
porções de minhas noites e instantes de solidão.
Ela me prestou atenção. Tínhamos afinidades!

E falamos de doçuras, deleites e encantos.
Uma mulher envolvente.
Que me exasperava com seus enunciados impositivos:
“Quero”, “cadê”, “por quê?”.
Uma mulher mimada!
                                                            
Mas, tinha um abraço gostoso!
Que me despertava uma quentura...
um arremesso aos primeiros desejos,
às ansiedades desconhecidas de menino.
Uma ousadia!
Pensei transar com ela, banalizar o termo da ternura,
Invadir suas luxúrias. Domá-la entre lençóis e estrelas!
Pra finalmente alcançar seu abandono absoluto.
Desvendá-la na madrugada
entre o espaço da casa dela e da minha...Comodidade.
Mas .Meu desejo nem é tão real assim, ela nem é tão ousada assim.
E ela quer coisas estranhas: “favores”, “delicadezas”...

Sou de sagitário, um caçador!
Melhor não tê-la por perto.
Afinal ela é de escorpião,
Pura agitaçao  
Melhor não.

                               Tânia Fonseca.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Nuances...


Uma pena que não possamos nos agasalhar em nossos desejos. Eu desejo a volúpia, o arrepio, o beijo e o cheiro profundo do sexo úmido e ardente...Voce, se perde nos esconderijos dos seus afetos. Se esconde na indefinição dos seus gozos! Talvez um dia eu possa desvendar os seus mistérios...Talvez eu possa me abrigar na sua nudez...Talvez!

Tânia Fonseca

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crianças entre lobos!


            
           A infância atual está revestida de características absurdamente contraditórias: Nunca antes as crianças foram tão enaltecidas, mimadas e amadas, beirando muito das vezes a um endeusamento inconveniente e alarmante. Temos um cotidiano movimentado por um exército de crianças que estão no poder absoluto da extremamente frágil instituição familiar. São pais subordinados de forma irrestrita a toda uma rede de caprichos e manipulações infantis. Pais perplexos frente a filhos revestidos em miniaturas de ditadores. “Eu quero!”, “Eu faço!”, “Eu posso!”.
Paralela a essa infância consumista e destituída dos claros limites da proteção e do respeito ao próximo, nos defrontamos com um universo infantil emoldurado pela indiferença, a banalização e a crueldade sem limites para com as crianças. Presenciamos tantas atrocidades contra as crianças atuais, ressaltando as brasileiras e enfatizando as da grande Goiânia, que o espanto e um silêncio estarrecedor parece ser o único gesto possível de indignação.
São crianças que em algum instante são tidas como inconvenientes, desnecessárias, incomodadiças. Crianças que não se harmonizam com o espaço quase sempre libertino, egoísta e imediatista dos pais. Portanto propensas a serem jogadas pela janela como foi Isabela Nardoni pelo “pai e a madrasta”. Ou o garoto Lucas 6 anos pelo “pai excessivamente apaixonado”. Crianças que são mortas e esquartejadas como os irmãos Igor, de 12 anos e João Victor, de 13 anos, pelo “pai e madrasta”. Outras queimadas e torturadas com Lucélia 12 anos pelos “pais patrões”. Inúmeras recém-nascidas que são imediatamente abandonadas no lixo, em terrenos baldios ou outras ambientes totalmente adversas, por mães pauperizadas em todos os aspectos de sua humanidade. E como se o ato de matar e esquartejar não fossem suficientes, a menina Raquel 9 anos foi estuprada e abandonada dentro de uma mala em uma rodoviária em Curitiba por um adulto desconhecido e entediado.
São tantas as ocorrências e tão bizarras e tão impensáveis na condição humana que em sua maioria se vangloria de ser moldada à imagem e semelhança de Deus, que só nos resta o espanto.
A modernidade exige adultos ocupados, rápidos, multidisciplinares e permanentemente sobressaltados e inseguros. Estamos sempre atrasados e insatisfeitos. Exaltados demais! Depressivos demais! Humanizados de menos! Estamos construindo uma realidade adversa às crianças. Não as desejamos pelo motivo que deveria ser único e absoluto. “O desejo incondicional de amar um outro ser humano...”.
Queremos as crianças por vaidade: “O filho que perpetua a genética, os negócios, a tradição”. Por interesse: “o filho amparo futuro”. Por solidão, “o filho acompanhante”: Por urgência biológica: os filhos temporões”. A tão famigerada criança que nasce para restaurar ou fortalecer o “amor sensual” e o frágil equilíbrio de famílias fragmentadas. Pobres crianças essas, que serão as primeiras que, no fracasso de tão absurdas e improváveis expectativas, serão jogadas no limbo da indiferença, na guerra obscena entre os pais ou jogadas literalmente pela janela. E por fim, temos as crianças frutos da banalização do sexo, da pauperização dos afetos e da ignorância tardia das relações humanas.
Estamos criando meninos e meninas precocemente erotizados, consumistas e imediatista. Estamos ferindo, torturando e matando nossas crianças, assim, de manchete em manchete, em verdadeiros espetáculos de horrores exaustivamente explorados por todos os meios de comunicação.
Haverá um Herodes bíblico, oculto dentro de cada um de nós, a espera do primeiro instante de enfado e raiva absoluta, e do despertar da maldade original e atávica...
Dizia o velho Cristo, “deixai vir a mim as criancinhas... porque delas é o reino dos céus”. Eu na minha experiência árida e desiludida desdigo, “deixe-as no céu”. Porque somos indignos de tê-las, e amá-las e protegê-las.






Tânia Fonseca.


Agosto é o mes da flor mais elegante da natureza: o copo-de-leite



quinta-feira, 28 de julho de 2011

TEMPOS ESTRANHOS!

Vivemos tempos estranhos! Estamos sempre cansados e sobrecarregados. Estamos todos sempre ocupados e atrasados.

Terceirizamos quase todas as nossas atividades: O serviço doméstico é das diaristas ou de uma esposa ou casais estafados e apressados. A refeição, que antes reunia a família, agora é engolidas às pressas nos “fast foods” espalhados pela cidade. O cuidar dos filhos, a educação e a formação indentitária das crianças, antes o projeto maior de pais e mães, hoje é delegado às escolas, creches e empregadas domésticas ou muitas vezes às ruas. A família espaço de aconchego e segurança, parafraseando Drumonnd, “é uma fotografia na parede, e como dói”.

Tempos estranhos! Tempos de solidão! Nunca antes estivemos tão sós, individualizados, ainda que imersos na dependência de serviços terceirizados.

Não conhecemos nossos vizinhos! A menina Lucélia foi torturada durante anos junto a vizinhos ocupados demais, cansados demais, que após os fatos expostos, se perguntavam. – Como? Quando? Porque?

As casas, antes lares com quintais, hortas e pomares e com portões displicentemente abertos, com cercas de arame ou mesmo cercas nenhuma. Lares receptivos e confortáveis, ainda que humildes, transformaram-se em pequenas ou grandes celas, com grades, alarmes e cães ferozes. Mantendo a maldade de fora, mas em contrapartida impedindo o companheirismo e a afetividade de entrarem.

Somos seres solitários, absurdamente compromissados. O trabalho, atividade universal, construtor e definidor de nossa identidade e consequentemente de nosso posicionamento na sociedade nos absorve com uma fúria avassaladora. Em nome do trabalho delegamos e protelamos todas as nossas aspirações, nossos desejos e nosso tempo.

Não temos tempo! Estamos permanentemente atrasados, fragmentamos os ciclos do amor. Não conhecemos as pessoas, as desejamos e possuímos, sem o tempo necessário ao amadurecimento e à noção de pertencimento.

Não temos tempo, nem disponibilidade, nem disposição, para conhecermos as pessoas. A amizade se transmudou a companheiros de bares, de festas e eventos banais e passageiros. As adversidades, os grandes projetos e sonhos pessoais quase sempre são realizados e superados com as ausências horrorizadas dos supostos amigos.

Não temos tempos de termos amigos! Não temos tempo de sermos amigos! De sermos gentis, de sermos recíprocos e solidários. Mantemos dos conhecidos, uma distância razoável que não permita que nos sintamos responsáveis por suas alegrias e não tenhamos que ceder nosso colo para amparar os infortúnios.

Tempos estranhos, em que telefonemas não são retornados, que confraternizações não são realizadas – por conflitos de agendas - E o natal, um evento, doméstico e religioso, inerente à família, vizinhos e conhecidos, hoje, se realiza em filas quilométricas dos shoppings e lojas de departamentos.

Tempos em que os filhos são mantidos distantes, em infindáveis atividades extraclasse, os velhos em asilos e abrigos, sempre questionáveis e os doentes em mãos desconhecidas e nem sempre gentis e desejáveis.

Tempos estranhos em que se deve morrer nos hospitais, longe dos entes queridos, em que os funerais devem ser breves e impessoais e o luto contido e efêmero. Não temos tempos para a tristeza! Tempo esse, que exige seres humanos, permanentemente jovens, bonitos, ricos e saudáveis!

Vivemos tempos estranhos...Tristes, solitários e rápidos, absurdamente rápidos, o que é um consolo. Tempos melhores virão!





sexta-feira, 22 de julho de 2011

O mistério!





Adivinha o que eu tenho entre os seios? Perguntou ela maliciosamente!
- Pérolas falsas!?  Respondeu ele estabanado.
- Não! Sussurou ela deliciada com a descortesia curiosa dele.
- Dinheiro!? Mulheres adoram guardar dinheiro entre os seios!
Ela riu arrulhadamente e se estirou no sofá.
-Não! Enfatizou ela com gosto.
E o mistério se debateu entre os seus seios.
Então ela o chamou baixinho. Levantou o decote do vestido e disse como em confissão. - Veja!
Ele olhou os seios pequenos e brancos e percebeu a avezinha azul adormecida entre eles. Ficou  atônito, surpreendido pelo inusitado da descoberta. - Que lindo! Um beija-flor!
Ela sorriu gostosamente! Era comovente a expressão de menino nos olhos dele.
- Sim! Um beija-flor!
E ficaram ali suspensos num instante mágico! Uma mulher com um ninho entre os seios, um homem desvendando um mistério e um beija-flor inquieto e azul...






quarta-feira, 13 de julho de 2011

OLÍMPIA...

Quando Olímpia se apaixonou, imediatamente, começou a enlouquecer. Seus olhos de rasas nuances verdes tornaram-se turvos e profundos, e todos perguntavam: “Que olhos de espanto são esses Olímpia?” Olímpia não respondia e seus olhares se perdiam na escuridão do verde e nas profundezas do desejo.
            Seu corpo de talhe forte, forjado desde a infância, no trabalho árduo e nas perdas irreparáveis, adquiriu uma moleza songamonga, uma “lesera” descuidada, um não sei o quê de vontades muitas e uma inquietude contrastante e desconcertante.
            Muitas vezes, o escuro da noite, a surpreendia em pleno dia e, vezes tantas, os dias invadiam as madrugadas, ensolarando seus sonhos e iluminando seus pesadelos. E muitas foram às tardes presenteadas pela aurora! E o tempo se perdia num labirinto de luzes e sombras...
            Olímpia se apaixonou assim, numa tarde descuidada, e já à noite, teve sonhos com flores e serpentes. Ao amanhecer, já exalava um perfume perturbador e indefinido que deixava os homens inquietos e barulhentos e as mulheres alertas e vigilantes. Seu cheiro atraia os olhares e deixava os ambientes desconfortáveis e não tardou a atrair também, os pássaros, as borboletas e outros pequenos insetos. Como se o amor e o desejo tivessem lhe transformado em um pequeno jardim selvagem e intenso.
            Foram várias as manhãs em que o porteiro perplexo recolhia da calçada, os pardais e beija-flores, mortos e feridos no embate inglório contra a vidraça fechada da janela de Olímpia. E os vôos desordenados das borboletas escuras, obrigavam os outros moradores a manterem os vãos fechados e a maldizerem do calor e do inusitado de serem reféns dos caprichos da natureza.
            Olímpia, absorta em sua paixão desmedida, escrevia cartas, idealizava encontros, arquitetava diálogos e perdia-se em carícias e toques de uma ternura incondicional. Distraída com os arroubos do seu sexo, não percebia o vigor selvagem de seus cabelos que cresciam caudalosamente, cobrindo as costas, enroscando em suas pernas e negando terminantemente a se deixar ajeitar por tranças, laços ou fitas. Os cachos rebelavam-se aos favores de pentes e escovas e emolduravam seu rosto numa selvageria lasciva, contornado e dando ao seu perfil uma aparência de uma Medusa muito branca e muito jovem.
            Não tardou, para que todos percebessem junto à presença de Olímpia, um calor desconcertante, uma sensação inebriante de desejos vários e indefinidos. Receosos de percepções tão inusitadas, que os faziam a se entregarem em abraços calorosos e demorados com pares totalmente desconhecidos: Olímpia passou a ser ostensivamente evitada. Instintivamente todos se distanciavam, temerosos e inseguros.
            Olímpia entregava-se despudoradamente a um desejo intenso e absoluto. Não entendeu, ou melhor, recusou terminantemente a aceitar que seu amor fosse rejeitado. O belo homem, responsável por tanta paixão. Surpreendido e sem nenhuma sutileza disse: não. Não deixou nenhuma possibilidade de diálogo, afastou-se de forma definitiva, fechou em absoluto qualquer possibilidade de aproximação. O mundo de Olímpia quebrou-se...E a luz se esvaiu.
            Uma noite acabrunhada e silenciosa acalentou o pranto inconsolável de Olímpia. Uma tristeza sem fim tingiu de cinza as paredes nuas do seu quarto e suas lágrimas, num vigor inesgotável de fonte, encharcaram os lençóis e as fronhas. E um frio implacável invadiu sua alma e dominou seu coração com as garras gélidas da morte.
Dizem, que ao amanhecer, uma nuvem de borboletas azuis cobria o belo corpo nu de Olímpia estendido na calçada. Dizem, que eram tantas e tão belas! Que todos se comoviam quando se aproximavam. Porque sabiam estar diante de uma mulher que morrera por amar mais do que pode.


Tânia Fonseca


domingo, 26 de junho de 2011

BOM DIA, ESCURIDÃO!

         Dia 23 de janeiro, quarta-feira, às nove e quarenta da manhã, estava eu, no melancólico aeroporto internacional (?) de Goiânia que, convenhamos é uma vergonha! Esperando meus filhos que voltavam do Amapá, onde passavam férias. Como cheguei cedo e o vôo para não variar atrasou e as cadeiras previsivelmente encontravam-se ocupadas, me pus a flanar pelos sofríveis espaços eternamente em reforma do aeroporto Santa Genoveva.  
        Entre uma vitrine e outra me chamou a atenção duas mulheres que riam e conversavam altos. Aparentando mais de 25 e menos que trinta e poucos anos, bonitas e bem vestidas, pareciam alheias ao atraso e pouco incomodadas com o desconforto vexatório do saguão.
            A mulher mais alta tamborilava um celular “X3 Pink”, enquanto a menor observava as fotos recém-tiradas numa máquina digital “XXX 860”, artefatos esses que davam pista de um poder aquisitivo acima da pobreza absoluta, único fator que poderia justificar o diálogo que veio a seguir.
- Amiga, arrumei emprego novo, vou trabalhar em Rondônia, numa cidade, qual mesmo o nome? Hummm Rio Branco? Manaus??? Será que é Manaus? Hum, ahh não sei...
- Mas deixa pra lá, quando eu chegar lá, eu aviso pelo orkut!
            A solução pareceu abençoada, a amiga aliviada, e ambas caíram em risadas inexplicáveis e se afastaram imersas na alegria despreocupada da ignorância.
            Eu fiquei congelada! Estática! Senti-me invadida por um cansaço secular. Eu, que costumo bradar aos céus minha quase impossibilidade de me escandalizar nesses tempos estranhos, que sobrevivi a perdas e danos irreparáveis e cujo espírito descrente e impaciente beira a tolerância zero, me vi ali perplexa com a constatação de que, duas mulheres jovens, saudáveis, bonitas e “não pobres absolutas”, desconheciam o seu próprio universo.
          Em 2005, O Instituto Paulo Montenegro (IPM), braço social do grupo IBOPE, em parceria com a ONG Ação Educativa apresentou os resultados do V Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF) mecanismo criado com o objetivo de investigar a capacidade cognitiva dos brasileiros. Verificou que apenas 26% da população brasileira na faixa de 15 a 64 anos de idade são plenamente alfabetizados. Naquela manhã, em pleno aeroporto, esses dados se confirmavam: os brasileiros em especial, os jovens, vivem á margem de sua realidade, de seu espaço, de sua cultura e dos conhecimentos mínimos sobre seu país. São minimamente alfabetizados.
         Muitos podem me definir como exagerada, mas não sou. É obrigação de um cidadão (a) conhecer a sua nação, sua aldeia, pois se não, como poderá protegê-la, cuidá-la. Já destruímos parte substancial de nosso belo planeta, em grande parte por total descompromisso e desconhecimento de suas entranhas.
         Quando se retira a bela Rio Branco do coração do Acre, despreza-se  toda uma história de lutas, conflitos e por que não heroísmo. E ao imaginá-la em Rondônia, despreza-se também um vasto território brasileiro que abriga uma profusão de conquistas, enfrentamentos, vitórias e questões agrárias, étnicas e sociais.
           E o pior dos pecados, desconhecer Manaus! Fato esse quase uma aberração. Conhecida e ambicionada mundialmente como representante máxima de ecoturismo. Manaus a “Paris dos trópicos”, a “mãe dos Deuses”, reina absoluta com seu silêncio quente e úmido de cidade incrustada entre a maior floresta tropical do mundo.
        Manaus e sua arquitetura ambiciosa, belíssima! Que nos remete ao passado glorioso do ciclo da borracha, da riqueza farta e supostamente fácil.
        Desconhecer a localização de Manaus é não saber do exótico Rio Negro e suas águas da cor do caldo do açaí macerado com as mãos, e do seu abraço amoroso com o Rio Solimões, num fenômeno inusitado e único que gera o nosso gigantesco Rio Amazonas. Como desconhecer essas peculiaridades brasileiras? Como imaginar que serão protegidas e preservadas, se uma maioria escandalosa dos brasileiros desconhecem seus encantos?
         Mais do que escandalizada, fico preocupada, um povo que não sabe é facilmente manipulável, é frágil, é refém permanente de uma elite, quase sempre predadora.
        Jovens, acordem! Saiam do orkut, do MSN, desliguem o mp3, e o vídeo game por algumas horas e comprem um Atlas, um livro, leiam uma revista, escrevam uma carta, leiam um jornal.
         Fujam da escuridão obscena da ignorância. Caso contrário, não haverá futuro nenhum.




Tânia Fonseca.
Tâniassfonseca@hotmail.com

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O DIREITO DE NASCER.

            O nascimento é, em todas as civilizações, um acontecimento cercado de expectativas, seriedade e alegrias, afinal, trata-se da perpetuação da espécie. No ato de parir, mãe e filho encontram-se em absoluta vulnerabilidade, dependentes do bom senso e da boa vontade dos demais membros da família e do grupo em geral.
No Brasil atual, onde viver é um ato permanente de sobrevivência, nascer está se tornando uma indecência. Coitado do brasileirinho que nasce amparado por planos de saúde questionáveis ou pela rede pública de saúde. Na verdade, nascer no Brasil está se tornando um bravo ato de superação.
É vergonhoso observar o descaso com que mães humildes são tratadas na rede pública de saúde e mesmo nos hospitais de menor porte. Os profissionais e instituições, responsáveis pelo atendimento à gestação e ao parto, que deveriam amparar as mães aflitas e acolher os seus filhos, revestem-se de uma indiferença e de uma ignorância tão escandalosa que deveriam ser punidos com a reclusão e a perda do exercício da profissão.
David ia nascer em breve, sua família já tinha preparado seu cantinho, comprado roupinhas azuis e perfumado as gavetas. Mas, David não iluminou sua família com sua chegada. David e a mãe morreram, vítimas do descaso médico, afinal, David era apenas um brasileirinho simples, um a mais na estatística.
A tragédia de Manuela permitiu contornos mais elaborados. Manuela, assim, como outras três parturientes foi rejeitada na unidade materna do Hospital Miguel Couto (RJ) onde teve o endereço da maternidade a ser procurada, rabiscado nos próprios braços, pelo médico obstetra de plantão. Depois de tanta humilhação, Manuela e as outras grávidas tiveram que pegar ônibus e andar algumas quadras até serem atendidas. Manuela foi submetida a uma cesariana de urgência e sobreviveu, a filha que esperava, não.
Finalizando essa tragédia de descaso e indiferença, Manuela conseguiu voltar pra casa com vida, ainda que infinitamente mais pobre em sua humanidade e com os braços assustadoramente vazios.
Maria Vitória nasceu prematura e por negligencia dos funcionários do hospital de Itumbiara (GO) foi dada como morta. Após ser resgatada pelo pai a caminho do necrotério, lutou bravamente pela vida, por vários dias. Mas seu corpinho apesar de valente, era frágil demais e não resistiu. “O que fizeram foi uma falta de respeito com a vida dela, uma desconsideração, foi desumano!” Disse a mãe aos prantos! Alguém duvida?
O ato de nascer, de dar a luz a um novo ser é sagrado universalmente. É triste observar que no meu país o nascimento de crianças comuns está se revestindo de indiferença, descaso e omissão.
A OMS (organização Mundial da saúde) considera razoável até 20 mortes maternas por cem mil nascidos vivos. No Brasil morrem 100 mulheres por cem mil nascidos vivos, 90% pacientes do SUS. Goiana está na 9ª posição entre as capitais com as taxas de morte materna mais elevadas no Brasil. Fato que é surpreendente, haja vista nossa recente origem rural, onde o parto é um ritual capaz de agregar familiares, vizinhos, amigos e afins.
É inconcebível que uma grávida seja assistida com descaso e enfado e até agressividade. È inacreditável que ela não seja agasalhada e tenha seus temores e suas dores e inseguranças amenizadas por profissionais qualificados para isso.
Afinal, no Brasil paramos no dia 25 de Dezembro, numa festa designada Natal, para celebrarmos o nascimento incomum de um suposto menino Deus! Nascimento esse que dividiu o mundo ocidental em antes e depois e norteia os cristão há 2009 anos. Convenhamos, tempo suficiente para que as “Marias” não sejam mais ignoradas e os meninos Jesus não nasçam mais em situações tão inóspitas.
A impressão que tenho é a de que, enquanto escrevo esse artigo, inúmeras “Marias” estão parindo seus meninos (as) envoltas na indiferença e no descaso. Muitas terão suas manjedouras vazias, e muitos “Josés” choraram a ausência de ambos.
Infelizmente na vida real, não tem estrela de Belém, nem reis magos presenteadores. As tragédias da vida real, não permitem poesia. Só resta a essas famílias o pranto inconsolável e a pergunta desesperada: por quê? Por quê?


Tânia Fonseca.


taniassfonseca@hotmail.com

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O silêncio dos culpados.

Nunca antes a política brasileira esteve tão imoral, ou corrigindo, nunca antes a política brasileira esteve tão escancaradamente imoral. Somos expostos diuturnamente às mais diversas formas de canalhices possíveis dos nossos políticos. Estamos a par de seus roubos, das suas desfaçatezes e dos seus desmandos.   
Nunca antes, nossos políticos praticaram tantos desmandos com nosso dinheiro, assim, sem um pingo de vergonha na cara, sem um resquício de moral e de respeito por nós cidadãos, sempre mal assistidos e ignorados.
            Estamos exaustivamente informados da corrupção que assola a arena política atual. Então, por que nós nos calamos?  Por que não reagimos e exigimos que saiam? Que sejam punidos? Por que nós, os brasileiros, não nos mobilizamos? Não nos juntamos em grupos de 30, 40, 100 mil brasileiros cansados e ofendidos e colocamos esses políticos ladrões e ordinários para fora de nossas instituições governamentais?
O futebol com sua alegria desmedida: atrai um público, em geral, de 30 mil ou mais torcedores aguerridos e dispostos a incentivarem seus times. Os shows artísticos também arrastam multidões encantadas por ídolos quase sempre dispensáveis. E as igrejas, então, repletas de fiéis à procura de soluções mágicas e rápidas. Por que então não conseguimos invadir o congresso com 70 mil ou mais cidadãos indignados e ultrajados?
Tenho certeza que, um levante com milhares de pagadores de impostos: Portando a desrespeitada bandeira brasileira e bradando fervorosamente o nosso esquecido hino nacional e invocando a punição e exigindo o decoro e honestidade da nossa liderança, implantaria o medo na corja de ladrões que se agasalham na nossa combalida política. Forçando os líderes marginais a debandarem e a restaurarem o respeito e a dignidade necessária para lidarem com o público e o social.
Fico imaginando o senado cercado de brasileiros indignados. E Sarney e os demais safados, estupidificados, assustados como ratos. Acusando e apontando seus dedos sujos uns nos outros, se escondendo e se justificando inutilmente.   Seria o final de uma época de malandragem e o inicio de uma etapa de responsabilidade e respeito pela nação. Por que então ficamos calados e passivos?
Sociologicamente as respostas são inúmeras. Mas vou ser apenas realista. Somos um povo embalado desde a mais tenra infância, com o mantra de que, aos parentes e amigos cabem as benesses, aos outros, a lei. Aprendemos muito cedo, que em nossas cadeias a maioria é de negros, pardos e pobres. Aprendemos também que ser esperto e levar vantagem são uma virtude. Quem tem padrinho com prestígio pode muito e quem tem prestígio e dinheiro pode tudo.
No Brasil, jovens chegam à faculdade escrevendo lixo com “ch”, resultado de professores que fingem que ensinam e alunos que não se incomodam em não aprenderem. Grande parte de nossos funcionários públicos são indiferentes, incompetentes e omissos.  Isso quando não são cooptados pelo crime: medicamentos que são roubados de hospitais públicos e postos de saúdes e vendidos a preços módicos em feiras livres. Merendas que são desviadas de escolas públicas. Brinquedos que são roubados de abrigos infantis. Doações a necessitados que são espoliadas. Segundo pesquisa da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, sete em cada 10 brasileiros compram produtos piratas. Em resumo, são crimes que acontecem porque tem toda uma rede de receptadores que são os cidadãos comuns.
No Brasil prosperam os golpes que prometem dinheiro fácil e rápido. Ou alguém acredita na inocência dos enganados nos golpes da pirâmide, do bilhete premiado e outras várias ciladas que contam com a predisposição do outro a si dar bem, sem muito esforço.
Afinal, no Brasil, o jeitinho brasileiro é uma característica positiva. Brasileiros estacionam em lugares proibidos, jogam lixo em lugares inusitados, inventam “gatos” de energia e de água. Brasileiros compram diplomas falsos, carteiras de motoristas, compram a boa vontade dos guardas. Compram carros, peças e outras mercadorias pela metade do preço, sem a mínima preocupação com suas procedências. Em resumo, existe uma tolerância e uma aceitação anormal pelo ilícito, pelo ilegal e pelo imoral. Portanto, José Sarney, Renan Calheiros e todos os outros personagens nefastos de nossa política, infelizmente representam a nossa face oculta.
No Brasil, são poucos os que podem atirar a primeira pedra.



Tânia Fonseca



quarta-feira, 15 de junho de 2011

ARAGUAIA: UM RIO PRA CHAMAR DE MEU!

Após décadas de ausência, fui rever o rio Araguaia. Decidi apresentá-lo aos meus filhos: Os gêmeos de 12 e um jovem de 20 anos, nascidos ás margens do grandioso rio Tocantins e criados as margens do também grandioso, o oceânico rio Amazonas. Portanto íntimos da doçura das praias silenciosas e quentes e de uma fauna diferenciada e abundante e do “banzeiro” preguiçoso das águas límpidas, ainda que, turvas e profundas.
As expectativas definiam-se diversas: Os gêmeos ansiavam pela aventura e o inusitado do passeio; cobiçavam a pescaria e a diversão. O mais velho, sem grande entusiasmo, pensava antes nas adversidades: distância, desconforto, mosquitos, falta das últimas notícias do Brasileirão; enfim, afligia-o a quebra dos hábitos gostosamente cultivados na modernidade. Já as minhas expectativas eram de absoluto confronto, dentre o rio da minha juventude: ainda distante e tranqüilo e o rio atual: das dragas criminosas, da devastação e do abuso turístico e ambiental.
Após décadas, fui rever o rio Araguaia. Não me permiti ir como uma turista casual, afinal, era um reencontro e os reencontros exigem uma seriedade e uma elaboração peculiar. Esperei que findasse o período da alta temporada: não queria revê-lo atropeladamente em meio a uma legião de turistas, nem sempre corretos, nem sempre cordiais com a natureza. Mas, também não queria revê-lo nos meses chuvosos, onde muito da exuberância de suas cores, creditadas ao dourado de suas areias e ao sol escaldante, se perderiam para o lúgubre de chuvas infindáveis.
Aproveitei do início da primavera e percorri exatos 485 km, até a cidade de Luís Alves, muito além de Aruanã, pouco antes de Mato Grosso. O exato lugar onde ele me foi apresentado. Chegamos sob o sol escaldante das 14:00 hs. A cidade que conheci com algumas dúzias de casas, se transformara num aglomerado extenso de hotéis e pousadas, voltadas para o turismo de pesca. Barcos e barcos se debruçavam ás margens do rio anfitrião. Não nos detivemos na cidade, como já disse - Queria reencontrar o rio das minhas lembranças – percorremos, portanto, mais 4 km, para finalmente me estender sob as areias quentes, olhar aquele “mundão de água” e me deixar envolver pelas comparações e pela nostalgia de tempos delicadamente guardados.
Surpreendeu-me constatar que, apesar de todos os abusos contra suas belezas, ele conseguiu resguardar uma “belezura” desmesurada. Era comovente presenciar a natureza resistir e contornar, explenderosamente indiferente, a presença humana. Foi um contentamento sem fim, nos depararmos com uma família de ariranhas nos encarando sem nenhum temor. Tão próximas, que temi que entrassem no barco. Vários foram os jacarés, que indiferentes, saiam das águas e se perdiam entre os troncos e as raízes expostas das matas ciliares, sem nenhuma preocupação com nossa presença. E as aves então, inúmeras, confiantes e barulhentas! Mas, o que mais me encantou e deixou as crianças em polvorosa foram os botos: brincalhões, comilões e barulhentos, que nos proporcionavam sustos gostosos e uma exultação indescritível, ainda que frustrassem em definitivo a chance de uma pescaria abundante.
Lindo, lindo, lindo! O rio Araguaia continua lindo! Nosso reencontro foi doce e respeitoso. Recolhi de suas margens inúmeros resquícios deixados por gente mau caráter: garrafas, latas, sacolas plásticas. Cada impureza que eu retirei de suas entranhas, foi como um afago, um carinho. E todo o lixo que eu não deixei, além de obrigação, foi um ato de amor.
Quando parti de Goiânia e fui viver no Pará, adotei o rio Tocantins como “meu rio”. Ás suas margens registrei fases determinante da minha vida. Nos últimos dez anos já em Macapá, adotei o rio Amazonas – e me sentia muito importante de ter em meu quintal, um rio que é um mar! – em suas águas escuras e silenciosas embalei uma década de solidão.
Agora que voltei pra casa, quero um rio pra chamar de meu. Para cuidar, mimar e proteger. Para, poeticamente, colocá-lo nos braços e lhe falar de um futuro bom: sem dragas, garimpos e devastação. Tenho a convicção de que cuidamos melhor daquilo que nos pertence, que conhecemos. O rio Araguaia agora é meu! Sou detentora de um tesouro! E sinto o imperativo de preservá-lo. Voltei preparada a me aliar a grupos dispostos a torná-lo eterno. Vou assinar protestos contra sua depredação, vou fazer manifestações e declarações sobre a urgência de protegê-lo.
Parafraseando Pessoa: O maior rio do mundo, não é o Nilo, nem o Amazonas. O maior e o mais lindo rio do mundo é o que corre, aqui, nas terras em que nasci, o meu, o seu o nosso Araguaia!






Tânia Fonseca –Tâniassfonseca@hotmail.com

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sobre medos, maldades e monstros!

 Quando criança, várias de minhas noites, eram aterrorizadas pela imagem de uma andarilha, “Lurdes, a louca”, uma mulher doente, suja, descabelada, dentes apodrecidos e roupas enxovalhadas, em geral, um vestido largo, curto e estampado de flores encardidas e tristes.
Andava aleatoriamente pelas ruas empoeirada do bairro, gritando palavras desconexas e jogando pedras nas crianças, poucas é verdade, que ousavam a lhe fazer piadas e grosserias. Não raro, Lurdes, arrancava as roupas e saia nua pelas ruas, expondo o corpo magro, carcomido pela pobreza, pelo abandono e por doenças oportunistas. Para reforçar sua figura deprimente, Lurdes sofria crises de epilepsia, nas quais se debatia nas calçadas em espasmo grotescos, doloridos e barulhentos: momento em que era recolhida ao hospício “Adauto Botelho”, do qual ressurgia tempos depois, sempre pior e recomeçava a perambular pelo bairro, babando, gritando e pontilhando minha infância de medo e insegurança.
            Lurdes, a louca, foi a responsável pelos meus terrores noturnos, meu hábito de dormir com pais e irmãos durante toda a infância e a aversão incontrolável e permanente pela sujeira e desordem. Sua imagem merecedora de compreensão, ajuda e cuidados especiais, representava para meu desamparo infantil, o medo, o que mais perto eu julgava ter chegado da maldade.Nas minhas inseguranças de menina, Lurdes, a louca, com sua fealdade e sujidade espantava meus sonhos e enchia de sobressaltos minhas vigílias.
            Não tardou muito para que o tempo e o progresso, com suas avenidas asfaltadas, prédios, muros e casas gradeadas, dragassem, Lurdes e muitas outras figuras pitorescas de minha meninice e de uma Goiânia, hoje, existente apenas em fotos e relatos literários.
E não tardou também para que, junto com a nova cidade, me fosse apresentada toda uma gama de novos medos e inseguranças. Constato cotidianamente que a maldade que eu menina, imaginava estar em uma mulher fragilizada pela doença. Hoje se espalha epidemicamente em novos personagens. Esses sim, embebidos verdadeiramente da essência mais depurada da crueldade e violência.
 Hoje, não só minhas noites são invadidas pelos terrores, mas meus dias e minhas tarde, encontram-se permanentemente envolvidas no medo e no receio constante de que a maldade finalmente consiga tocar e devastar de forma irreversível a minha vida a de meus filhos e de pessoas queridas com as quais convivo.
Aterroriza-me grande parte dos políticos. Pessoas vilipendiosas responsáveis pela maldade ordinária da corrupção, da safadeza e arrogância. Responsáveis por doentes que morrem em hospitais depredado por suas más gestões. Responsáveis por crianças analfabetas e famintas em escolas precárias e defasadas. Responsáveis pelas mortes brutais entre cidadãos sem perspectivas e por uma segurança ineficaz e medíocre. Tenho horror de grande parte dos políticos e de suas sanhas desmedidas pelo dinheiro e vantagens pessoais. Seres asquerosos que desviam dinheiro, superfaturam toda ou qualquer atividade que deveria beneficiar a comunidade, chafurdam-se na lascívia e no desproposito do poder.
Não menos aterrorizantes são os criminosos contumazes, que invadem nossas casas, nos roubam e podem matar nossos filhos e entes queridos, assim, num espasmo de prazer sádico e banal, pouco interessados em avaliarem as conseqüências. Representantes de uma maldade atávica, universal e certamente imutável.
Não nos esqueçamos da maldade incrustada nas pessoas mais improváveis. Como aqueles indivíduos aparentemente gentis que intempestivamente jogam a filha pela janela. Ou a moça meiga e tímida que ajuda o namorado a abater os pais indefesos que dormem imersos em sonhos sem retornos. E os homens comuns e apaixonados que matam suas amadas com requintes de crueldade. E outros que as matam junto aos filhos, insensíveis aos pedidos de clemência. E a maldade inusitada de pais e mães supostamente comuns que queimam, ferem, abusam e assustam de forma indelével a vida dos filhos.
E não menos cruéis e nojentos me apavoram os imbecis que matam no trânsito; invadindo sinal vermelho, ultrapassando sem segurança e dirigindo embriagado. São também medonhos os imbecis que jogam lixo nas ruas, furam filas, procuram tirar vantagem em tudo, e espalham seu desrespeito, covardia e falta de educação, desconsiderando todos os malefícios advindo de suas atitudes nefastas.
Mas, o meu medo maior que infiltra meu ser de pavor, e me deixa gélida, é o meu monstro interior. Monstro esse, que vigio diuturnamente de formas espartana. E que, mesmo assim, às vezes, se enfurece e é responsável pelos rompantes furiosos com os quais, quando em vez, assusto meus filhos. A impaciência rude com que freqüentemente magôo meus familiares queridos. A intolerância sarcástica com a qual, muitas vezes, escandalizo meus amigos e mantenho afastados os conhecidos. A incapacidade de ser maleável e aceitar os deslizes alheios. A repulsa absoluta pela incompetência e ignorância desnecessária. E pior, a aridez incontornável do meu coração, desprovido do aconchego da fé e avesso às crenças dogmáticas e enfadonhas da religião. Um espírito desprovido de ilusões e consequentemente exigente, solitário e triste.
Quando criança, acordava apavorada por uma figura imaginária e inofensiva. Hoje, passo meu tempo de vigília dominando minha maldade secreta. E temendo que meus filhos, amigos e pessoas várias que me cercam, não tenham a mesma disciplina arraigada que eu, e que, não consigam manter adormecida ou controlada a maldade que habita no íntimo de cada um de nós. ‘            Apavora-me que eles não consigam manter sob controle, seus monstros ensandecidos, que vivem a espreita, com suas garras afiadas na tragédia, a espera do primeiro e avassalador deslize.


Tânia Fonseca
socióloga






domingo, 29 de maio de 2011

A arte de perder




“A arte de perder não é nenhum mistério...
Perdi duas cidades lindas. E um império...
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente... Por muito que pareça (Escreve!) muito sério.“  (Elizabeth Bishop)

      Ainda dói, um pouco, quando penso nele, principalmente à noite, quando o tempo se acalma e a agitação do dia se dilui no cansaço e no silêncio. Ainda, é extremamente doloroso me debruçar sobre algumas lembranças: Vestígios tão delicados e doces de encontros e desencontros.

      Às vezes, recortes de toques, olhares e risos invadem meus sonhos, transformando minhas noites num palco melancólico e confuso. Ainda sonho com ele, menos, é verdade, mas o suficiente para que minhas manhãs percam o frescor e a leveza necessária para um dia feliz
.
       A arte de perder, ao contrario do que diz a poeta é triste e dolorosa. As perdas mesmo as mais insignificantes ferem e marcam. Muitas são tão graves que matam (nenhuma mãe deveria sobreviver à morte de um filho) outras fustigam, dilaceram e estimulam agressividades absurdas e muitas vezes insuspeitas. Não são poucos os amantes que ao se verem abandonados matam e morrem. Dizem que por amor, mas na verdade foi pela perda, afinal, perder é sim, muito grave!


       É muito triste perder pessoas, se distanciar, se desvencilhar do aconchego de afinidades e cuidados. Nada nem mesmo todo o dinheiro do mundo substitui o deleite e a alegria de estar cercado pelas pessoas queridas. A felicidade se resume em estar incrustada de afetos verdadeiros e desejados.
       Dizem que o mal do século é a solidão; bobagem, solidão é uma condição necessária. Afinal, é necessária boas dose de solidão para abastecer sonhos, projetos e definições. E doses extras de solidão para chorar fracassos, desilusões e abandonos. 

      O mal do século são as perdas recorrentes, os vínculos indesejáveis, os amores desaquecidos, amortalhados na indiferença e arrastados pela rotina. O mal do século é o desamor!

      Ainda dói, um pouco, quando penso nele. Ainda sou surpreendida durante meus afazeres diversos, com lembranças deliciosamente tolas, que permearam nossa história: Uma inconfidência marota! Um pecadilho inocente! Uma troca aflita de ilusões.

      Dói menos hoje do que doeu ontem, e certamente amanhã, vai doer menos ainda. E não será sem assombro que, no decorrer de um dia qualquer, ao esbarrar com seus olhos, eu não mais veja o tumulto ensandecido de minha ternura. Constatarei com pesar que são apenas os olhos desconcertados de alguém querido que eu não conheço mais.

       Nesse dia, certamente, vasculharei minhas saudades, revolverei delicadamente os sobressaltos angustiados de meu coração. Andarei a passos largos pelos vãos, agora vazios dos meus desejos. E só então, terei certeza que a dor passou. Que o amor passou! E posso enfim, caminhar passo a passo rumo a um recomeço...
      A arte de perder não é nenhum mistério!


Tânia  Fonseca.





O meu desafio é andar sozinho...